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Francine Linch: O livro "Sobras de Vida e Terra" e aqueles que lutam por dignidade

A obra faz adentrar no universo das personagens

O Livro Sobras de Vida e Terra traz um marco importante para mim, pois foi um de meus primeiros contatos com a literatura. O ganhei no ensino fundamental, de minha professora de Português e autora do livro, Elaine Fátima Bonetti, pela qual nutri um grande carinho, por se tratar de uma pessoa muito bondosa e amável, apesar das dificuldades que já passou na vida.

No texto, a autora associa sua história com a de Vanda, personagem principal do livro. Tudo tem início em 1989, quando Vanda e seu marido Ernesto, após muitos anos trabalhando como peões em uma fazenda e sendo explorados, humilhados e cada vez mais subjugados por seus chefes, decidem lutar por liberdade e pela conquista de sua própria terra, após ouvirem falar do Movimento Sem Terra (MST). Eles e seus três filhos viviam uma vida miserável, onde todo o trabalho feito só custeava a alimentação.

Leia também: Comecei em Guaíba meu livro sobre videogames

A narrativa de Elaine nos faz adentrar no universo das personagens, despertando não só a imaginação, mas também a empatia para com eles. No decorrer da história, há várias simbologias que relacionam diretamente a natureza com os momentos vividos por aquelas famílias - "o dia amanheceu, a chuva caía lentamente. No céu as nuvens pareciam olhos a chorar a desesperança, que aos poucos se tornava mais forte com o desespero deles".

A autora traz um olhar sensível a respeito da trajetória dos Sem Terra, mostrando situações por eles vivenciadas. Angústia, insegurança, medo, frio e fome foram só algumas das coisas pelas quais passaram. Repressão policial, incluindo a morte de pessoas e até crianças, humilhações descabidas e ameaças de morte, tanto da polícia, quanto de fazendeiros e cangaceiros, como até mesmo de pessoas que os viam e sentiam repulsa pelo estado subumano no qual se encontravam. Descaso do governo - "chegou o Natal, o Ano novo, e nada de vida nova: o governo os esqueceu ali" – e além de tudo, a crítica constante das mídias.

Vale ressaltar que, apesar de todo empecilho e sofrimento evidenciado no livro, o grupo, que contava com cerca de duas mil famílias, manteve-se o tempo todo unido. Organizaram-se em setores e núcleos, onde cada um tinha suas tarefas e responsabilidades como membro ativo da comunidade. Ademais, havia a preocupação para com igualdade de gênero, estabelecendo que homens e mulheres tivessem direitos e deveres iguais, tanto no sentido de os homens realizarem as tarefas domésticas, quanto no sentido de as mulheres participarem das assembleias e negociações com o governo.

Trata-se de uma história emocionante, e o que acentua isso é a veracidade dos acontecimentos, tanto na vida da autora, como na vida daqueles que lutaram e ainda lutam pelo direito de viver com dignidade. A jornada das famílias foi manchada de sangue, dor e muitas perdas, mas o que sobrou dessas vidas continuou em busca da terra prometida pelo governo. Afinal, é tão errado assim lutar para ter um pedaço de terra e poder cultivar sua existência? Num país onde tão poucos detêm quase tudo, e muitas vezes suas terras permanecessem inutilizadas, somente a título de posse e status.

A luta pela reforma agrária ainda é um tema muito controverso em nosso país, tanto por haverem monopólios das terras - enquanto muitos são basicamente escravizados para poderem garantir comida na mesa - quanto pelo fato de os participantes do MST serem estigmatizados pela sociedade, que por ignorância e mesmo por não buscar informação, trata essas pessoas como escória. Contudo, também há muitos simpatizantes da causa e pessoas dispostas a ajudar os Sem Terra, seja com incentivo, alimentos, ou mesmo empatia, como é mencionado no decorrer da história.

Leia também: Mais livros, menos fármacos e o poder medicinal da literatura

Deixo por fim uma citação do livro, com o intuito de instigar os leitores, pois a nós cabe o questionamento de nossa realidade e a luta contra as injustiças: "trabalhadores e terra, apesar de serem livres, vivem na escravidão, assim como os negros já foram explorados e maltratados.”

*Francine Linch é técnica em administração, escritora e cantora nas horas vagas, tendo algumas de suas obras publicadas no livro "Entre Amarras & Nós" e em suas redes sociais. Também participa de intervenções literárias da cidade, como o Café com Letras.




Oferecimento:
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Francine Linch: O livro "Sobras de Vida e Terra" e aqueles que lutam por dignidade

O Livro Sobras de Vida e Terra traz um marco importante para mim, pois foi um de meus primeiros contatos com a literatura. O ganhei no ensino fundamental, de minha professora de Português e autora do livro, Elaine Fátima Bonetti, pela qual nutri um grande carinho, por se tratar de uma pessoa muito bondosa e amável, apesar das dificuldades que já passou na vida.

No texto, a autora associa sua história com a de Vanda, personagem principal do livro. Tudo tem início em 1989, quando Vanda e seu marido Ernesto, após muitos anos trabalhando como peões em uma fazenda e sendo explorados, humilhados e cada vez mais subjugados por seus chefes, decidem lutar por liberdade e pela conquista de sua própria terra, após ouvirem falar do Movimento Sem Terra (MST). Eles e seus três filhos viviam uma vida miserável, onde todo o trabalho feito só custeava a alimentação.

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A narrativa de Elaine nos faz adentrar no universo das personagens, despertando não só a imaginação, mas também a empatia para com eles. No decorrer da história, há várias simbologias que relacionam diretamente a natureza com os momentos vividos por aquelas famílias - "o dia amanheceu, a chuva caía lentamente. No céu as nuvens pareciam olhos a chorar a desesperança, que aos poucos se tornava mais forte com o desespero deles".

A autora traz um olhar sensível a respeito da trajetória dos Sem Terra, mostrando situações por eles vivenciadas. Angústia, insegurança, medo, frio e fome foram só algumas das coisas pelas quais passaram. Repressão policial, incluindo a morte de pessoas e até crianças, humilhações descabidas e ameaças de morte, tanto da polícia, quanto de fazendeiros e cangaceiros, como até mesmo de pessoas que os viam e sentiam repulsa pelo estado subumano no qual se encontravam. Descaso do governo - "chegou o Natal, o Ano novo, e nada de vida nova: o governo os esqueceu ali" – e além de tudo, a crítica constante das mídias.

Vale ressaltar que, apesar de todo empecilho e sofrimento evidenciado no livro, o grupo, que contava com cerca de duas mil famílias, manteve-se o tempo todo unido. Organizaram-se em setores e núcleos, onde cada um tinha suas tarefas e responsabilidades como membro ativo da comunidade. Ademais, havia a preocupação para com igualdade de gênero, estabelecendo que homens e mulheres tivessem direitos e deveres iguais, tanto no sentido de os homens realizarem as tarefas domésticas, quanto no sentido de as mulheres participarem das assembleias e negociações com o governo.

Trata-se de uma história emocionante, e o que acentua isso é a veracidade dos acontecimentos, tanto na vida da autora, como na vida daqueles que lutaram e ainda lutam pelo direito de viver com dignidade. A jornada das famílias foi manchada de sangue, dor e muitas perdas, mas o que sobrou dessas vidas continuou em busca da terra prometida pelo governo. Afinal, é tão errado assim lutar para ter um pedaço de terra e poder cultivar sua existência? Num país onde tão poucos detêm quase tudo, e muitas vezes suas terras permanecessem inutilizadas, somente a título de posse e status.

A luta pela reforma agrária ainda é um tema muito controverso em nosso país, tanto por haverem monopólios das terras - enquanto muitos são basicamente escravizados para poderem garantir comida na mesa - quanto pelo fato de os participantes do MST serem estigmatizados pela sociedade, que por ignorância e mesmo por não buscar informação, trata essas pessoas como escória. Contudo, também há muitos simpatizantes da causa e pessoas dispostas a ajudar os Sem Terra, seja com incentivo, alimentos, ou mesmo empatia, como é mencionado no decorrer da história.

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Deixo por fim uma citação do livro, com o intuito de instigar os leitores, pois a nós cabe o questionamento de nossa realidade e a luta contra as injustiças: "trabalhadores e terra, apesar de serem livres, vivem na escravidão, assim como os negros já foram explorados e maltratados.”

*Francine Linch é técnica em administração, escritora e cantora nas horas vagas, tendo algumas de suas obras publicadas no livro "Entre Amarras & Nós" e em suas redes sociais. Também participa de intervenções literárias da cidade, como o Café com Letras.




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