Guaíba Online

MENU
Logo
Sábado, 25 de junho de 2022

Coluna

Hepatite misteriosa em crianças: uma das consequências pós-Covid

Doença que acomete menores está em mais de 20 países, já tem casos no Brasil e pode exigir transplante de fígado.

Imagem de capa
A-
A+
Use este espaço apenas para Feedback
Máximo 600 caracteres.
enviando

Processos inflamatórios são considerados uma das causas do agravamento da Covid-19, incluindo o pós infecção pelo vírus. Embora a inflamação seja um mecanismo natural do organismo, quando exacerbada, pode pode danificar as células do próprio corpo, provocando lesões em diferentes órgãos. Atualmente, pesquisas indicam que em jovens até 16 anos, o órgão mais afetado tem sido o fígado através de uma hepatite ainda desconhecida.

 

Hepatite é o termo designado para qualquer inflamação do fígado, oriundo de causas diversas. Tratam-se de infecções, causando alterações hepáticas que vão de leves a graves, de forma silenciosa, sem apresentar sintomas evidentes conclusivos.

As hepatites virais são um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo, pois podem se manifestar como cansaço, febre, mal-estar, tontura, enjoo, vômitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras. 

As infecções pelos vírus tipo A (tratável), B (forma crônica), C (tratável) e o abuso do consumo de álcool ou outras substâncias tóxicas (medicamentos como paracetamol a longo prazo) são as mais freqüentes e demandam um acompanhamento médico, exames periódicos e repouso por tempo prolongado. Há, com menor frequência, o vírus da hepatite D, o qual é mais comum na região Norte do país e o vírus da hepatite E, que é menos comum no Brasil, sendo encontrado com maior facilidade na África e na Ásia.

 

Atualmente, um tipo de hepatite aguda de origem desconhecida está acometendo crianças em ao menos 20 países. As ocorrências relatadas,  foram na maioria, com crianças de um mês a 16 anos, sendo 163 casos no Reino Unido, 109 casos nos Estados Unidos, assim como na Espanha, Israel,  Dinamarca, Irlanda, Holanda, Itália, Noruega, França, Romênia, Bélgica, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte e Argentina, incluido óbitos. No Brasil, os casos suspeitos estão sob investigação: 5 no Rio de Janeiro,  2 no Paraná, 6 em São Paulo, 1 em Santa Catariana, 1 no Espírito Santo e 1 em Pernambuco. A cada dia, mais países notificam a OMS sobre casos dessa hepatite incomum.

A revista internacional Nature publicou um estudo sobre os dados que a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou, ou seja, mais de 200 ocorrências dessa hepatite desconhecida até o momento estão sob análise no mundo. Muito severa, a doença tem acometido pacientes mirins que tiveram qualquer contato com o vírus Sars-Cov-19, não tem relação direta com os vírus conhecidos de hepatites, sendo que 10% exigiram transplante de fígado. 

 

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da OMS nas Américas e Caribe, descreveu com detalhes em um comunicado, o que já se sabe sobre essa hepatite e seus casos graves relatados em vários países, os quais vem sendo monitorados com preocupação. 

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas) desenvolveram um estudo que demonstra como esse processo inflamatório se desencadeia e evolui No período do estudo brasileiro, o adenovírus dessa hepatite misteriosa foi detectado em pelo menos 74 casos, sendo que em 18 casos, os testes moleculares identificaram a presença do adenovírus F tipo 41 e em 20, foi identificada a presença do SARS-CoV-2. Além disso, em 19 houve uma coinfecção por SARS-CoV-2 e adenovírus conjuntamente. Viagens internacionais ou conexões em outros países não foram identificados como fatores da doença.

O novo coronavírus, ao invadir o organismo humano, dá início a um processo de replicação viral, gerando várias cópias de si mesmo. Nessa etapa da infecção, o sistema imunológico é acionado e passa a produzir o anticorpo afucosilado, que consegue neutralizar o vírus e impedir a entrada nas células do tecido humano.

 

O estudo apontou que é justamente esse processo de captura e digestão (fagocitose) que acende um alerta no organismo, para começar a produzir novas células de defesa (monócitos), desencadeando uma cascata inflamatória que pode afetar o fígado, já que o indivíduo encontra-se em estado de “guerra imunológica”.

O estudo brasileiro aponta que o surto pode estar relacionado com a infecção ou exposição da própria Covid-19,pois com bom base nas informações atuais, a maioria das crianças relatadas com essa hepatite aguda não recebeu a vacina contra Covid-19, descartando uma ligação entre os casos e a vacinação neste momento, mas por terem sido infectadas pelo vírus, apresentando sintomas ou não. 

Os pesquisadores da Fiocruz destacam que, apesar do vírus Sars-Cov-19 ter relação direta com os casos dessa nova hepatite, as vacinas contra a Covid-19 auxiliam na produção do anticorpo afucosilado. Os resultados abrem novos horizontes para tratamentos da Covid-19, dessa nova hepatite e reforçam a importância da imunização para todos os tipos de doenças.

 

Recomenda-se aos pais que, para proteger as crianças, o mais importante é ficarem atentos aos sintomas, como diarreia, vômito e sinais de icterícia – pele e  parte branca dos olhos ficam amareladas. Nestes casos, deve-se procurar atendimento médico imediatamente.

A OPAS recomenda ainda o uso de medidas básicas de higiene, como lavar as mãos e cobrir a boca ao tossir ou espirrar, continuar a usar máscaras para prevenir infecções, que também podem proteger contra a transmissão do adenovírus. 

Já para todos os países, as medidas recomendadas para prevenir a propagação da doença desconhecida é manterem-se informados, monitorarem e notificarem os casos à OMS.

Mas qual a relação das doenças com o meio ambiente?  

Através da história humana, os principais problemas de saúde enfrentados pelos homens têm tido relação com a vida em comunidade, por exemplo, o controle de doenças transmissíveis, o controle e a melhoria do ambiente físico, saneamento, a provisão de água e alimentos em boa qualidade e em quantidade, a provisão de cuidados médicos e o atendimento dos incapacitados e destituídos. A ênfase relativa colocada em cada um desses problemas tem variado ao longo da evolução humana e das catástrofes ou epidemias ocorridas, de forma que estão todos inter-relacionados. Deles se originou a saúde pública como a conhecemos hoje e suas relações com o meio ambiente.

 

Toda vez que o ser humano manipula microorganismos, mesmo que projetando benefícios para a Humanidade, modificam-se estruturas milenares de evolução, gerando desequilíbrios em todos os ecossistemas, os quais estão  sensivelmente e permanentemente interligados, incluindo nosso corpo. 

As preocupações com a problemática ambiental estão inseridas na Saúde Pública desde seus primórdios, apesar de só na segunda metade do século XX ter se estruturado uma área específica para tratar dessas questões, a qual trata da inter-relação entre saúde e meio ambiente, denominada de Saúde Ambiental. 

A OMS (1993) afirmava que a “Saúde ambiental são todos aqueles aspectos da saúde humana, incluindo a qualidade de vida, que estão determinados por fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos no meio ambiente. Também se refere à teoria e prática de valorar, corrigir, controlar e evitar aqueles fatores do meio ambiente que, potencialmente, possam prejudicar a saúde de gerações atuais e futuras”, assim como o Ministério da Saúde (1999) reafirmou que a "Saúde Ambiental é o campo de atuação da saúde pública que se ocupa das formas de vida, das substâncias e das condições em torno do ser humano, que podem exercer alguma influência sobre a sua saúde e o seu bem-estar".

A Saúde Ambiental atual baseia-se no reconhecimento da existência e das necessidades de todos os seres humanos e no encontro de soluções dentro dos princípios de eqüidade e de universalidade, de forma que cada pessoa tem seu direito preservado enquanto ser humano sob a premissa de um ambiente propício à vida é essencial para que desenvolva todas suas capacidades. Dados os perigos ao ambiente hoje e, em conseqüência, o perigo à própria existência, o acesso a um ambiente saudável deve ser concebido como um direito que impõe sobre cada um obrigação a ser respeitada. Assim, as pesquisas em Saúde Ambiental têm buscado subsidiar políticas, programas e ações que visem garantir maior justiça ambiental e esse direito inalienável do ser humano, apesar das dificuldades, por exigir transformações nos próprios homens.

Fontes:

- CNN Brasil. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/cientistas-desvendam-processo-de-inflamacao-relacionado-as-formas-graves-de-covid-19/  Acesso em 10/05/2022.

- Fiocruz. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/estudo-identifica-baixa-presen%C3%A7a-de-v%C3%ADrus-resistentes-a-medicamentos-para-hepatite-c Acesso em 10/05/2022.

- Instituto Butantan. Disponível em: https://butantan.gov.br/covid/butantan-tira-duvida/tira-duvida-noticias/entenda-o-que-e-a-hepatite-misteriosa-em-criancas-seus-sintomas-e-por-que-ela-e-perigosa Acesso em 10/05/2022.

- ORGANIZACÓN MUNDIAL DE LA SALUD Y PROGRAMA DE LAS NACIONES UNIDAS PARA EL DESARROLLO. El Camino Salutable hacia um Mundo Sostenible. Genebra, 1995. WHO/EOS/95.21

- RIBEIRO, H. Saúde Pública e Meio Ambiente: evolução do conhecimento e da prática, alguns aspectos éticos. Saúde e Sociedade, v.13, n.1, p.70-80, jan-abr 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/yCBJsNdjTRRB4ZZbbyw5nTy/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 10/05/2022. 

- ROSEN, G. A history of public health. New York: MD Publications, 1958. 551p.

Comentários:

Veja mais