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Maurem Kayna: Mais livros, menos fármacos e o poder medicinal da literatura

Eduardo Agualusa fala da ideia de uma “farmácia literária"

Divulgação

Começar as leituras do ano com uma distopia pode não soar muito animador, mas quando terminei A Parábola do Semeador, de Octavia Butler, pensei nas palavras de Eduardo Agualusa sobre o poder medicinal da literatura. Ambos acreditamos na literatura como um tratamento potente para os males do mundo. Se ela não é capaz de varrer os males da humanidade, certamente traz conforto, alívio e, quiçá, esperança.

O livro de Octavia foi escolhido para o primeiro encontro de 2020 do Clube de Leitura Leia Mulheres Porto Alegre e, embora tenha sido publicado originalmente em 1993, é um retrato contundente do presente (e do futuro logo ali). A trama mostra, como cenário, desigualdades sociais agravadas pela crise ambiental e a violência do desespero para sobreviver. Lauren Olamina é a protagonista que precisa tomar conta de si e daqueles com quem se importa e registra esse percurso em um diário. A narrativa começa em 2025, quando ela ainda tem uma vida relativamente segura em um bairro murado que não conta com as tecnologias de ponta disponíveis para os ricos e onde cultivar para comer é imperativo. Mas o equilíbrio precário que a comunidade mantinha está com o tempo contado e Lauren terá de se lançar por caminhos incertos como temos visto acontecer com imigrantes e refugiados.

Leia também: Livro "Guaíba: a nossa cidade contada por crianças" é lançado por pequenos escritores

A protagonista da trilogia (que ficou incompleta) de Octavia Butler é uma menina negra, inteligente e determinada, portadora de uma síndrome que a faz sentir as dores (e também os prazeres) dos outros – uma vulnerabilidade grave no contexto em que vive. A religião do pai, que era pastor, deixa de fazer sentido para ela, mas ela quer decifrar o papel de Deus na vida da terra e acaba por conceber uma nova fé. Ao buscar meios de compreender e se adaptar à mudança que marca a existência no universo ela vai construindo em seu diário as bases de uma nova religião – A Semente da Terra.

A escrita de Octavia é primorosa, sem floreios, intensa e contundente como o conteúdo narrado. A leitura poderá (deverá) doer porque te fará olhar pela janela da bolha (todos temos nosso bairro murado e as pessoas que elegemos como nossa comunidade) e ver os incêndios e as ruínas reais ou simbólicas do nosso cotidiano, mas esse livro também te mostrará a força, o valor e a beleza de ações / decisões / visões pensadas para além do teu umbigo. Vale cada segundo investido na leitura das 408 páginas!

Leia também:  Crianças lançam seu primeiro livro "Emocionário" e autografam na Vitrine Cultura

Volto, então, ao Agualusa que fala da ideia de uma “farmácia literária”. Sou favorável a pensarmos em substituir o uso indiscriminado da química como meio de suportar as mazelas do cotidiano (não me refiro às necessidade reais de medicamentos, pelamor!) por literatura. Ela consegue nos dar a mão (e as vezes asas) e trilhar conosco os caminhos desafiantes que sempre tivemos em qualquer tempo ou modelo de sociedade ajudando a levantar dos tombos inevitáveis.



* Maurem Kayna é engenheira e escritora (talvez um dia a ordem se altere), baila flamenco e vem publicando textos em coletâneas, revistas e portais de literatura na web há quase uma década, além de apostar na publicação em e-book desde 2010.

 

Oferecimento:
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Maurem Kayna: Mais livros, menos fármacos e o poder medicinal da literatura

Começar as leituras do ano com uma distopia pode não soar muito animador, mas quando terminei A Parábola do Semeador, de Octavia Butler, pensei nas palavras de Eduardo Agualusa sobre o poder medicinal da literatura. Ambos acreditamos na literatura como um tratamento potente para os males do mundo. Se ela não é capaz de varrer os males da humanidade, certamente traz conforto, alívio e, quiçá, esperança.

O livro de Octavia foi escolhido para o primeiro encontro de 2020 do Clube de Leitura Leia Mulheres Porto Alegre e, embora tenha sido publicado originalmente em 1993, é um retrato contundente do presente (e do futuro logo ali). A trama mostra, como cenário, desigualdades sociais agravadas pela crise ambiental e a violência do desespero para sobreviver. Lauren Olamina é a protagonista que precisa tomar conta de si e daqueles com quem se importa e registra esse percurso em um diário. A narrativa começa em 2025, quando ela ainda tem uma vida relativamente segura em um bairro murado que não conta com as tecnologias de ponta disponíveis para os ricos e onde cultivar para comer é imperativo. Mas o equilíbrio precário que a comunidade mantinha está com o tempo contado e Lauren terá de se lançar por caminhos incertos como temos visto acontecer com imigrantes e refugiados.

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A protagonista da trilogia (que ficou incompleta) de Octavia Butler é uma menina negra, inteligente e determinada, portadora de uma síndrome que a faz sentir as dores (e também os prazeres) dos outros – uma vulnerabilidade grave no contexto em que vive. A religião do pai, que era pastor, deixa de fazer sentido para ela, mas ela quer decifrar o papel de Deus na vida da terra e acaba por conceber uma nova fé. Ao buscar meios de compreender e se adaptar à mudança que marca a existência no universo ela vai construindo em seu diário as bases de uma nova religião – A Semente da Terra.

A escrita de Octavia é primorosa, sem floreios, intensa e contundente como o conteúdo narrado. A leitura poderá (deverá) doer porque te fará olhar pela janela da bolha (todos temos nosso bairro murado e as pessoas que elegemos como nossa comunidade) e ver os incêndios e as ruínas reais ou simbólicas do nosso cotidiano, mas esse livro também te mostrará a força, o valor e a beleza de ações / decisões / visões pensadas para além do teu umbigo. Vale cada segundo investido na leitura das 408 páginas!

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Volto, então, ao Agualusa que fala da ideia de uma “farmácia literária”. Sou favorável a pensarmos em substituir o uso indiscriminado da química como meio de suportar as mazelas do cotidiano (não me refiro às necessidade reais de medicamentos, pelamor!) por literatura. Ela consegue nos dar a mão (e as vezes asas) e trilhar conosco os caminhos desafiantes que sempre tivemos em qualquer tempo ou modelo de sociedade ajudando a levantar dos tombos inevitáveis.



* Maurem Kayna é engenheira e escritora (talvez um dia a ordem se altere), baila flamenco e vem publicando textos em coletâneas, revistas e portais de literatura na web há quase uma década, além de apostar na publicação em e-book desde 2010.

 

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