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Quarta, 20 de outubro de 2021

Coluna

Refletindo sobre a prática do melhor conselho de Nelson Rodrigues aos jovens: “Envelheçam!”

Na iminente percepção da maturidade, para certas fichas que têm de cair, quanto antes melhor.

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Quem acompanha meu perfil no Instagram (@g.zawacki) sabe que posto quase diariamente frases e ideias sobre desenvolvimento e evolução pessoal e também algumas maluquices que, nesta cabeça que vos escreve, parecem fazer muito sentido - e, olha, até há quem concorde. 

Minha última postagem foi sobre a seguinte ideia: “Os sonhos têm que ter prazos para serem realizados, senão tu passas a vida inteira esperando eles chegarem e postergando suas realizações”. O fato é que ao pesquisar uma imagem para essa frase encontrei diversas referências, como alpinistas atingindo cumes, empresários fechando negócios e também formandos em cerimônia jogando capelos para o alto.

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Ao ver imagem de um formando universitário com seu capelo (chapéu de formatura), foi inevitável lembrar na hora da primeira vez que toquei em um: na minha formatura de Ensino Médio, pela escola Cônego Scherer em Guaíba/RS. Enquanto lembrava de toda festa, me questionava se precisava de tanta pompa e circustância para algo que deveria ser tão básico, ou seja, a formação mais essencial para qualquer início de vida adulta… Mas o jovem de 17 anos não sabe disso ainda, e acha aquilo tudo de uma grande conquista. De fato pode ser, mas espera-se que maiores venham. Logo então me surgiu o questionamento se tenho algum arrependimento daquela cerimônia e… Quer saber? Tenho.

“Jovens: envelheçam rapidamente!”. O dramaturgo recifense Nelson Rodrigues (1912 - 1980) disparou, em sua última entrevista, essa marcante frase ao ser questionado se tinha algum conselho ao jovem brasileiro. E como uma frase tão curta pode conter tanta informação importante sobre a  fulminante e iminente - porém nem para todos - percepção da maturidade. 

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Talvez o “profeta” Rodrigues queria dizer que o jovem, imutavelmente inconsequente, se acha muito para a pouca bagagem que tem. Talvez queria de certa forma pedir à gurizada que parassem com algumas bobagens inúteis e fizessem algo de relevante. Mas se pudesse hoje, com mais de três décadas de vida, dizer ao Nelson - o que não precisaria porque obviamente ele já sabia - diria a ele que, apesar da genialidade de seu conselho, o jovem precisa e deve passar por essa fase. A inconsequência e até uma certa dose de rebeldia são necessárias para que o amadurecimento traga reflexões sobre tais responsabilidades. Ciente disso e da linha to tempo natural do ser humano, só restou ao escritor sugerir que “envelheçam rapidamente”, pois, para certas fichas que têm de cair, quanto antes melhor. 

Eu era orador da minha turma, junto de mais dois colegas. Quando escrevi o discurso não imaginei que aquela noite de início de janeiro estaria tão quente dentro do salão do clube Itapuí. E lá estavam, com redundância, três jovens “não envelhecidos” a discursar pelos cotovelos, deixando o público um tanto impaciente - enquanto se abanavam com o que tinham nas mãos, numa tentativa frustrada de aliviar o calor que não se dissipava pelos então ventiladores de parede do clube. Por sorte a minha turma era a 301… de oito turmas ao todo, se não me engano.

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Talvez meu arrependimento seja não ter subido ao palco e apenas dito ao microfone “muito obrigado a todos; lhes escrevo algo legal quando eu tiver 30 anos; tenham uma boa noite”. Mas a fase tem de ser passada, a experiencia tem de ser vivida e as memórias de situações embaraçosas têm de ser trazidas à tona - nem que seja pra dar risada num final de almoço de domingo. Por isso então digo aos “novos jovens” - sim, porque agora sou “cringe” - que envelheçam rapidamente mas que, ao chegar aqui, rejuvenesçam sempre que possível. .

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