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Quarta, 20 de outubro de 2021

Coluna

“Vamos queimar tudo"? Entenda a recente alteração na divulgação sobre queimadas e desmatamento no Brasil

Governo decidir excluir do INPE a atribuição de divulgação de incêndios pegou os próprios pesquisadores do órgão de surpresa

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Na continuação do desmonte das forças de fiscalização ambientais, na última segunda-feira, 12/07/2021, a notícia de que o governo federal decidiu excluir a atribuição de divulgação dos dados sobre alertas de incêndios e queimadas no país do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pegou de surpresa os próprios pesquisadores do órgão.

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Segundo o Ministério da Agricultura (MAPA), o trabalho de monitoramento e divulgação dos locais com maior probabilidade de incêndios no Brasil, a partir de agora, será feito pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), vinculado à pasta da Agricultura, notícia dada pelo diretor Miguel de Oliveira em uma live, com a participação da ministra de agricultura Tereza Cristina.

Conforme o entendimento dos responsáveis pelo Inmet e MAPA, a nova estrutura resolveria a “pulverização e dissonância na divulgação de dados” sobre incêndios no país, um problema enfrentado há mais de 40 anos e que nunca foi tratado.

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Com as mudanças anunciadas, alguns mecanismos medidores de focos de fogo em biomas como Amazônia, Pantanal e Cerrado, bem como os cálculos de área queimada, deixarão de ser feitos pelo INPE -órgão estritamente técnico, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia e passarão para a responsabilidade do MAPA.

As declarações do diretor do Inmet Miguel de Oliveira repercutiram negativamente na imprensa nacional e internacional e o MAPA chegou a enviar uma nota às redações, afirmando que o lançamento do chamado Painel Risco de Incêndio do Inmet possibilitará a adoção de medidas preventivas mais eficazes e econômicas aos incêndios florestais e queimadas. Ambientalistas do mundo todo discordam veementemente e se preocupam com a manipulação de dados que possam ocorrer.

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Entre os pesquisadores do Inpe, a surpresa foi tamanha porque, segundo Alberto Setzer - pesquisador e coordenador do Programa Queimadas de 1980 à 2020, na última sexta-feira (09/07), o governo realizou reunião virtual com os diferentes órgãos que trabalham no monitoramento e controle de incêndios no país e esteve em pauta o tema da sobreposição de esforços e conflitos de ações.

A emissão de alertas de incêndio e áreas propícias para fogo é um subproduto do Programa Queimadas que o INPE desenvolve há várias décadas, divulgando diariamente dados técnicos que são utilizados nas ações de combate e prevenção de incêndios.

O Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) publicou uma nota informando não ser verdadeira a informação de que INPE e Censipam deixarão de mostrar dados de incêndio e queimadas, afirmando que agora tais informações serão divulgadas de maneira unificada pelo Inmet e não mais de forma autônoma por cada órgão.

Segundo a nota, o produto-sistema lançado será complementar aos já implementados pelas Instituições e servirá para melhorar o monitoramento de queimadas, com o objetivo de unificar informações sobre o risco de incêndio e divulgá-las de maneira conjunta, de forma que todos os relatórios do Governo Federal sejam divulgados somente pelo Sistema Nacional de Meteorologia (SNM).

O SNM informou que será enviada uma minuta de regulamentação com o planejamento para a temporada de incêndios 2021 à Casa Civil, com a informação de que os órgãos que compõem o sistema irão contribuir através de boletim semanal com informações sobre a situação meteorológica, previsões para os próximos dias e monitoramento de queimadas.

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De olho nas novas mudanças, ambientalistas, economistas, agricultores e empresários de diversos ramos preocupam-se com a possibilidade de manipulação e inveracidade de dados, podendo ainda gerar consequências econômicas com parceiros do agronegócio e de exportação.  

É cientificamente sabido que existem queimadas de origem natural nos biomas do país em virtude da falta de umidade do ar e seca ímpar. Entretanto as críticas e preocupação ocorrem porque o Governo Federal não entende que sem uma fiscalização das queimadas irregulares e criminosas, elas aumentam, geram uma imensidão de perdas como empobrecimento de solo, morte de fauna e flora, avanço sobre as cidades, prejuízos à saúde dos cidadãos, além de prejudicarem as correntes de ventos que formam o Rios Voadores, que abastecem de chuvas todo o centro-oeste, sudeste e sul do país. 

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Em outras palavras, as consequências sociais, ambientais e econômicas são agravadas ano a ano e também vão ao desencontro das próprias políticas públicas de agricultura. Ou seja, a burrice é tamanha que os prejuízos estão se tornando incalculáveis!

E então, parafraseando o compositor e cantor nativista Rui Biriva na música “Vamo quebrá tudo”, agora será que está liberado e “vamos queimar tudo”?

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