O número de tornados registrados no Brasil vem crescendo nos últimos anos, com maior incidência nas regiões Sul e Sudeste. De acordo com dados da Plataforma de Registro de Tempestades Severas, o país contabilizou 88 ocorrências em 2024, o mesmo número de 2023, e o índice pode ser superado em 2025. Em 2021, haviam sido 55 casos. Pesquisadores apontam que parte desse aumento pode estar relacionada às mudanças climáticas e à melhoria na capacidade de observação dos fenômenos.

Segundo o especialista em tornados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ernani Lima, o Sul do país reúne as condições mais favoráveis à formação desses eventos. A combinação de massas de ar quente e úmida provenientes da Amazônia e de correntes frias vindas da Argentina cria o cenário propício para tempestades rotativas. “Esse contraste gera o chamado cisalhamento vertical do vento, intensificando as tempestades”, explicou o pesquisador.
Na última sexta-feira (7), um episódio com múltiplos tornados foi registrado em municípios do interior do Paraná e de Santa Catarina. O fenômeno, classificado como “outbreak”, ocorre quando várias tempestades produzem tornados simultaneamente. Segundo o meteorologista Maurício Oliveira, da Universidade Federal de Santa Maria, ao menos dez formações foram identificadas, com o mais intenso atingindo categoria 3 na escala Fujita, que vai até 5.
O eixo que se estende do sul do Mato Grosso do Sul até o oeste do Rio Grande do Sul é considerado a faixa mais propensa à formação desses fenômenos no país. A primavera é o período de maior frequência devido à presença simultânea de calor, umidade e ventos fortes. O evento mais letal já registrado no Brasil ocorreu em 1959, na divisa entre Santa Catarina e Paraná, causando aproximadamente 90 mortes. Outro tornado de grande impacto foi registrado em 1991, em Itu (SP), com 15 vítimas fatais.
Além do monitoramento, pesquisadores defendem investimentos em infraestrutura para mitigar os danos. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, funciona o laboratório nacional de estudos sobre os efeitos do vento em edificações, que já avaliou mais de 500 estruturas, incluindo pontes e estádios. As normas técnicas brasileiras determinam que construções na região Sul devem suportar ventos de até 180 km/h, e edificações essenciais, como hospitais, até 200 km/h.

Especialistas destacam que, embora já seja possível prever condições favoráveis à formação de tornados com algumas horas de antecedência, o país ainda precisa aprimorar os sistemas de alerta e o monitoramento contínuo para reduzir riscos à população.