A condição conhecida há décadas como síndrome dos ovários policísticos (SOP) passará a ser chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). A alteração foi definida por um consenso internacional publicado em 12 de maio no periódico científico The Lancet e envolve entidades médicas e organizações de pacientes de diversos países.
Segundo os especialistas envolvidos na revisão, a mudança busca corrigir limitações da nomenclatura anterior e ampliar a compreensão sobre o caráter sistêmico da doença, que afeta cerca de 170 milhões de mulheres em todo o mundo.
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A endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e representante do Brasil no grupo internacional responsável pela alteração, afirma que o termo “policístico” gerava interpretações equivocadas sobre a condição.
De acordo com a médica, a antiga nomenclatura levava à associação direta com a presença de cistos nos ovários, embora o quadro clínico esteja relacionado, na maioria dos casos, a alterações no desenvolvimento dos folículos ovarianos. Esses folículos apresentam crescimento interrompido, não completam o processo de ovulação e permanecem acumulados nos ovários.
Especialistas destacam que nem todas as pacientes diagnosticadas apresentam alterações ovarianas visíveis em exames de imagem. Ainda assim, podem manifestar sintomas hormonais e metabólicos característicos da síndrome.
Entre os sinais mais frequentes estão irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar, aumento de acne, crescimento excessivo de pelos, ganho de peso e queda de cabelo em padrão androgenético.
Dados apresentados pelo Global Name Change Consortium indicam que cerca de 85% das pacientes com a síndrome apresentam resistência à insulina. A condição também está associada ao aumento do risco de diabetes, obesidade, hipertensão, alterações no colesterol, gordura no fígado e doenças cardiovasculares.
A presidente da regional gaúcha da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Letícia Weinert, afirma que a nova definição busca retirar o foco exclusivo dos ovários e reforçar que a doença envolve diferentes sistemas do organismo.
O processo de revisão da nomenclatura mobilizou 56 organizações científicas e associações de pacientes, além da análise de mais de 14 mil respostas obtidas em pesquisas internacionais. O debate sobre a alteração teve início em 2012, com articulação do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos.
Conforme o consenso científico, o novo nome foi definido a partir de três aspectos centrais da condição: o envolvimento de múltiplos hormônios, os impactos metabólicos e as manifestações ovarianas e reprodutivas.
Apesar da mudança no nome, os critérios diagnósticos permanecem os mesmos. O diagnóstico continua sendo estabelecido quando a paciente apresenta ao menos dois entre três fatores principais: irregularidade menstrual, excesso de hormônios androgênicos ou alterações ovarianas identificadas por ultrassom ou exames hormonais.
O artigo publicado no The Lancet aponta ainda que até 70% das mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico durante grande parte da vida.
Segundo especialistas, a expectativa é de que a nova nomenclatura contribua para ampliar o reconhecimento da doença por profissionais de diferentes áreas da saúde, reduzindo o tempo até a identificação da condição e o encaminhamento para tratamento.
O acompanhamento terapêutico segue multidisciplinar e inclui mudanças no estilo de vida, prática regular de atividades físicas, alimentação adequada e, conforme cada caso, uso de medicamentos hormonais e sensibilizadores de insulina.
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