O avanço do acesso a dispositivos eletrônicos tem alterado hábitos de lazer na infância e reduzido a presença de brincadeiras tradicionais no cotidiano das crianças. O tema ganhou destaque na semana do Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, data que reforça a importância das atividades lúdicas para o desenvolvimento infantil.
Brincadeiras ao ar livre, jogos coletivos e atividades que estimulam a imaginação vêm dividindo espaço com celulares, tablets, computadores e videogames. A mudança é percebida por diferentes gerações. A auxiliar de limpeza Hozana da Silva lembra que passou a infância participando de brincadeiras em grupo nas ruas e observa diferenças em relação ao comportamento das crianças atualmente.
Segundo especialistas, diversos fatores contribuíram para essa transformação. Entre eles estão as mudanças na dinâmica familiar, a redução dos espaços públicos considerados seguros para atividades infantis, a rotina de trabalho dos responsáveis e a popularização dos equipamentos digitais.
A terapeuta ocupacional Amanda Sposito, da Universidade de São Paulo (USP), destaca que muitas famílias enfrentam dificuldades para conciliar trabalho, cuidados domésticos e momentos de interação com os filhos. Nesse contexto, as telas acabam ocupando parte significativa do tempo livre das crianças.
A pesquisadora participa do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, que avaliou os hábitos de 14 crianças. De acordo com os resultados, a exposição prolongada aos dispositivos digitais pode influenciar a capacidade de desenvolver brincadeiras espontâneas fora do ambiente virtual.
O levantamento identificou que algumas crianças relatam dificuldades para criar atividades quando estão longe das telas, tornando-se mais dependentes da orientação de adultos para organizar momentos de lazer. Conforme os pesquisadores, essa situação pode gerar um ciclo em que o entretenimento digital passa a ocupar cada vez mais espaço no cotidiano infantil.
Além dos impactos relacionados ao brincar, organizações de saúde alertam para possíveis consequências do uso excessivo de dispositivos eletrônicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam limites de exposição às telas de acordo com cada faixa etária.
As orientações consideram riscos associados ao desenvolvimento cognitivo, ao comportamento, à saúde emocional e a problemas físicos relacionados à visão, audição e postura corporal. As entidades também recomendam que o uso de aparelhos eletrônicos não substitua atividades essenciais, como alimentação, sono, convivência familiar e práticas recreativas.
Outro ponto destacado pelos especialistas é a necessidade de acompanhamento dos conteúdos consumidos por crianças e adolescentes. Ferramentas de controle parental têm sido utilizadas por famílias para monitorar acessos, limitar horários de uso e restringir conteúdos inadequados.
A comerciante Edilaine Ferreira afirma que estabelece períodos específicos para que a filha utilize o celular após a escola e acompanha regularmente as atividades realizadas no aparelho. Segundo ela, a supervisão tornou-se necessária diante da facilidade de acesso a conteúdos impróprios na internet.
Apesar das preocupações relacionadas ao uso excessivo, pesquisadores e profissionais da área educacional defendem que a tecnologia também pode desempenhar papel positivo quando utilizada de forma orientada. Projetos sociais e educacionais têm buscado integrar recursos digitais ao aprendizado e ao desenvolvimento de habilidades.
Um exemplo é o projeto Gaming Park, criado em 2022 e presente em comunidades do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. A iniciativa utiliza videogames como ferramenta de ensino, oferecendo atividades ligadas à tecnologia, orientação profissional e ações comunitárias voltadas para jovens entre oito e 17 anos.
De acordo com a coordenação do projeto, os jogos digitais podem contribuir para a socialização, o trabalho em equipe, a comunicação e o desenvolvimento de competências relacionadas ao universo tecnológico, desde que inseridos em um contexto educativo e acompanhados por responsáveis.
Especialistas defendem ainda o fortalecimento da educação midiática como estratégia para preparar crianças e adolescentes para o ambiente digital. O objetivo é desenvolver habilidades que permitam compreender o funcionamento das plataformas, identificar informações falsas, entender o uso de algoritmos e fazer escolhas mais conscientes sobre os conteúdos consumidos.
Além da participação das famílias e das escolas, profissionais da área apontam que empresas responsáveis pelas plataformas digitais também possuem papel relevante na promoção de ambientes mais seguros e na adoção de medidas que reduzam mecanismos capazes de incentivar o uso excessivo dos dispositivos.
O debate sobre o uso das telas na infância segue em crescimento e envolve o desafio de equilibrar os benefícios oferecidos pela tecnologia com a preservação de experiências consideradas importantes para o desenvolvimento social, emocional e criativo das crianças.
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