Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) identificou uma associação entre o consumo moderado de café com cafeína e um menor risco de demência. O estudo, publicado nesta segunda-feira (9) na revista científica JAMA, analisou dados de aproximadamente 130 mil pessoas acompanhadas por quase quatro décadas.
Durante o período de acompanhamento, 11.033 participantes desenvolveram demência. De acordo com os resultados, indivíduos que consumiam entre duas e três xícaras de café por dia, com cerca de 237 ml cada, apresentaram risco 18% menor da condição em comparação ao grupo com menor consumo.
A pesquisa também observou resultados semelhantes em relação ao chá. Participantes que consumiam de uma a duas xícaras diárias da bebida tiveram risco 14% menor de demência. Além disso, o consumo regular de café e chá foi associado a menor prevalência de declínio cognitivo subjetivo, caracterizado pela percepção de perda de memória, e a desempenho ligeiramente superior em testes de atenção e memória verbal.
Apesar da associação identificada, o autor sênior do estudo, Daniel Wang, professor da Escola de Medicina de Harvard, ressaltou que os efeitos observados não substituem outras estratégias reconhecidas de prevenção. Segundo ele, o impacto encontrado é considerado pequeno dentro de um conjunto mais amplo de fatores que influenciam a saúde cognitiva ao longo do envelhecimento.
Os efeitos positivos foram registrados principalmente entre consumidores de café com cafeína. Em alguns casos, o consumo elevado de café descafeinado apareceu ligado a maior percepção de declínio cognitivo, embora os pesquisadores destaquem que isso pode estar relacionado ao perfil de saúde de quem opta pela versão sem cafeína, como pessoas com ansiedade, distúrbios do sono ou problemas cardíacos.
O estudo levanta hipóteses sobre possíveis mecanismos da cafeína no cérebro, como o bloqueio de receptores de adenosina e a redução do acúmulo da proteína beta-amiloide, associada à doença de Alzheimer. Também foram citados efeitos anti-inflamatórios e possíveis relações indiretas com menor risco de diabetes tipo 2, fator considerado relevante para demência.
Especialistas apontam ainda que outros compostos presentes no café e no chá podem contribuir para os resultados. O cardiologista Luiz Antônio Machado César, do Instituto do Coração (InCor) da USP, destacou que substâncias fenólicas e antioxidantes presentes nas bebidas podem ter papel importante, reforçando que não se trata de um efeito isolado da cafeína.
A neurologista Elisa de Paula França Resende, da Academia Brasileira de Neurologia, destacou que o principal diferencial do estudo está no número elevado de participantes e no longo período de acompanhamento. A pesquisa utilizou dados de duas grandes bases de profissionais da saúde, com questionários aplicados a cada dois a quatro anos, e controlou fatores como idade, escolaridade, tabagismo, atividade física, dieta e histórico médico para reduzir interferências nos resultados.
Os autores concluem que o consumo moderado de café ou chá com cafeína pode estar associado à saúde cognitiva, mas reforçam que mais estudos são necessários para compreender a relação de causa e efeito.
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