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Sexta-feira, 12 de Julho de 2024

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As marcas que deixamos no meio ambiente: conheça mais sobre a "pegada ecológica"

A forma como vivemos deixa marcas no Planeta e o cálculo da Pegada Ecológica ajuda a avaliar a pressão sobre os recursos naturais

Aline Stolz - Papo Ambiental
Por Aline Stolz - Papo Ambiental
As marcas que deixamos no meio ambiente: conheça mais sobre a
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Em 1971,  o romeno Nicholas Georgescu-Roegen foi um dos primeiros a abordar o conteúdo,  introduzindo o tema da bioeconomia e a preocupação com a continuidade da vida de diversas espécies na Terra. Em seu livro The Entropy Law and the Economic Process (A Lei da Entropia e o Processo Econômico, em tradução livre),conceituado na segunda lei da termodinâmica e na lei da entropia dos sistemas apontou para a inevitável degradação dos recursos naturais em decorrência das atividades humanas, criticou os economistas liberais neoclássicos por defenderem o crescimento econômico material sem limites e desenvolveu uma teoria oposta e ousada para a época: o decrescimento econômico.

Já nos idos da década de 90, os especialistas William Rees e Mathis Wackernagel procuravam formas de medir as crescentes das marcas que Humanidade vinha deixando no planeta. Em 1996, os  cientistas publicaram o livro “Pegada Ecológica – reduzindo o impacto do ser humano na Terra”, apresentando ao mundo um novo conceito no universo da sustentabilidade deniminado “Pegada Ecológica”.

 

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A Pegada Ecológica foi criada para que se perceba e calcule a quantidade de recursos da Natureza utilizados para sustentar o atual estilo de vida das pessoas, o que inclui os impactos na cidades, em nossas casas, na fabricação de móveis, roupas, eletroeletrônicos, transportes, produção de alimentos, pós consumo, horas de trabalho e lazer, demais produtos que compramos e assim por diante e atualmente é um conceito desenvolvido e reconhecido a nível internacional pela Global Footprint Network, plataforma que reúne conhecimento sobre sustentabilidade.

Assim, a Pegada é uma ferramenta de leitura e interpretação da realidade, pela qual se enxerga simultaneamente os problemas conhecidos, como desigualdade e injustiça, e, ainda, indica e permite a construção de novos meios para solucionar o desequilíbrio insustentável, por meio de uma distribuição mais proporcional dos recursos naturais, sejam de ações individuais ou coletivas.

Na prática, funciona da seguinte forma: a Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia os índices de consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. É expressa em hectares globais (gha), medida que permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta. Em outras palavras, um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas no período de um ano. 

 

Conjuntamente à metodologia da Pegada Ecológica há a Biocapacidade, que representa a capacidade dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano.

Assim, a Pegada Ecológica contabiliza os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeiras, fibras, energia renovável, etc.), segmentados em Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída, Energias e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2).

Para calcular as pegadas, foi preciso estudar os vários tipos de territórios produtivos (agrícola, pastagens, oceanos, florestas, áreas construídas), as diversas formas de consumo (alimentação, habitação, energia, bens e serviços, transporte e outros), as tecnologias usadas, os tamanhos das populações e outros dados. 

Cada tipo de consumo é convertido, por meio de tabelas específicas em uma área medida em hectares. Além disso, é preciso incluir as áreas usadas para receber os detritos e resíduos gerados e reservar uma quantidade de terra e água para a própria natureza, ou seja, para os animais, as plantas e os ecossistemas onde vivem, garantindo a manutenção da biodiversidade e essa é a parte da Bbiocapacidade. 

Conforme ensina a WWF, os componentes da Pegada Ecológica são:

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Figura 1. Componentes da Pegada Ecológica. Fonte: WWF, 2021

Como a produção de bens e consumo tem aumentado significativamente, o espaço físico terrestre disponível já não é suficiente para  sustentar esse estilo de vida em tão elevado padrão atual. Geralmente, as sociedades altamente industrializadas (coletivo), assim como seus cidadãos (individual), utilizam-se de mais espaços do que os membros de culturas ou sociedades tradicionais menos industrializadas. Dessa forma, suas pegadas são maiores pois, ao utilizarem recursos de todas as partes do mundo, afetam locais cada vez mais distantes, explorando essas áreas ou causando impactos por conta da geração de resíduos. 

 

Para assegurar a regeneração das condições favoráveis à vida, se faz necessário que as sociedades vivam de acordo com a “capacidade” do planeta, ou seja, de acordo com o que a Terra pode fornecer e não com o que se deseja que ela forneça, principalmente em grandes escalas produtivas e a curto prazo. Então, avaliar até que ponto os impactos gerados já ultrapassaram o limite é de fundamental importância, pois assim, a Humanidade identificará se está vivendo de forma sustentável.

A Pegada Ecológica é o indicador mais conhecido para mensurar os impactos da ação humana sobre os recursos ambientais. Juntamente com ela também destacam-se a Pegada de Carbono e Pegada Hídrica, formando a Família de Pegadas, de forma que os três indicadores são complementares e permitem analisar os múltiplos aspectos das consequências das atividades humanas sobre o capital natural.

Pegada Ecológica – Mede os impactos da ação humana sobre a natureza, analisando a quantidade de área bioprodutiva necessária para suprir a demanda das pessoas por recursos naturais e para a absorção do carbono.

Pegada de Carbono – Mede os impactos da humanidade sobre a biosfera, quantificando os efeitos da utilização de recursos sobre o clima.

Pegada Hídrica - Mede os impactos que as atividades humanas causam na hidrosfera, monitorando os fluxos de água reais e ocultos.

A famílias das pegadas tentam capturar de diferentes formas as pressões do consumo humano sobre os recursos naturais.O destaque está que nem todos os potenciais podem ser capturados por esses indicadores, sendo possível mapear apenas a utilização direta dos recursos naturais. Já os recursos indiretos, os quais são oferecidos pela natureza, como os serviços de ecossistemas ou os valores de opção de usos futuros dos recursos naturais, não podem ser mapeados.

 

Os três indicadores revelam uma distribuição desigual do uso de recursos entre habitantes de diferentes regiões do mundo. Com base nesses dados, é possível subsidiar políticas de desenvolvimento e endossar conceitos como contração, convergência, justiça ambiental e partilha justa, de forma a complementarem-se mutuamente no que se refere à avaliação da pressão humana no planeta.

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Figura 2. Organograma de Consumo pelas Pegadas. Fonte: WWF, 2010

 

Recentemente, os dados demonstram que se está utilizando cerca de 50% a mais daquilo que está disponível em recursos naturais e afirma-se que esta é uma forma irracional de extraploração da natureza, gerando o esgotamento do capital natural mais rápido do que sua capacidade de renovação. Esta situação não pode ser mantida, pois em breve, se enfrentará uma crise socioambiental e uma disputa por recursos sem precedentes na história da Humanidade. 

Atualmente, a média mundial da Pegada Ecológica é de 2,7 hectares globais por pessoa (2,7 gha/pessoa), enquanto a biocapacidade disponível para cada ser humano é de apenas 1,8 gha/pessoa. Essa situação crítica e emergente coloca a população do planeta em grave déficit ecológico, correspondente a - 0,9 gha/pessoa, de maneira que a humanidade hoje necessita de 1,5 planetas para manter seu padrão de consumo, colocando, com isso, a biocapacidade planetária em grande risco eminente de colapso e até extinção.

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Figura 3. Projeções Tendenciais até 2050. Fonte: Global Footprint Network, 2010.

 

A figura 3 demonstra as projeções para o ano de 2050, as quais apontam que, se houver a continuação deste padrão, se fará necessário mais de 2 planetas para se manter o consumo e a vida na Terra. É eminente que se faça um esforço mundial para reverter essa tendência, fazendo com que a sociedade consumista viva dentro da biocapacidade planetária, tarefa difícil mas necessária e possível com pequenas mudanças individuais e coletivas. 

 

Outro efeito da excessiva exploração da natureza é a perda acelerada da biodiversidade, ou seja, o desaparecimento ou declínio do número de populações de espécies, plantas e animais. Estudos assustadores apontam que a perda da biodiversidade verificada entre os anos de 1970 e 2000, foi de 35% e é somente comparável a eventos de extinção em massa ocorridos quatro ou cinco vezes durante os bilhões de anos da história da Terra, causados por desastres naturais, mas jamais pelo ser humano, como agora. 

Em se falando de Brasil, conforme dados da Global Footprint Network (2010), em série histórica, a Pegada Ecológica brasileira tem mostrado uma tendência de aumento pouco acentuada até 2005, mesmo assim preocupante, mesmo que indique uma estabilidade nos padrões de consumo neste período.

Em contraponto, a biocapacidade brasileira vem sofrendo um forte declínio ao longo dos anos devido ao empobrecimento dos serviços ecológicos e degradação dos ecossistemas. Mesmo assim, o país encontra-se em uma importante posição no cenário mundial, como um dos maiores credores ecológicos do planeta, situando-se em um cenário extremamente favorável  na nova proposta de economia verde, mas infelizmente não utiliza-se desse mérito, depredando não só sua biodiversidsde, mas sua política ambiental, a qual já foi referência em práticas de sustentabilidade, consorciamento de culturas e fortalecimento de agricultura familiar.

Até 2050, o planeta poderá ter 9,7 bilhões de habitantes. São centenas de milhares de pessoas que precisam consumir água, se alimentar,  ter moradia com energia elétrica e se locomover entre cidades e países. Sem uma conscientização sobre a requisição de recursos naturais, a tendência é que a demanda seja superior à capacidade de regeneração dos ecossistemas naturais.

 

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Figura 4. Comparação da Pegada Ecológica e Biocapacidade Brasileira comparada aos países do BRIC’s. Fonte: Global Footprint Network, 2010.

Entretanto, para se manter nesta posição de credor ecológico, o Brasil precisa reverter o proeminente quadro de declínio de sua biocapacidade, buscando ações de conservação e de produção ecoeficiente,diminuir a Pegada Ecológica de sua população por meio do consumo consciente e da manutenção da estabilidade populacional. Um colapso ainda pode ser evitável se houverem mudanças de hábitos urgentes individuais e coletivos, como:

1. Praticar os 7 R’s: Reduza, Repense, Responsabilize-se, Respeite, Recuse, Reaproveite e Recicle;

2. Lavar a roupa com menos frequência, guardar a água de lavagem e reutilizá-la;

3. Tomar banhos mais rápidos;

4. Plantar um jardim, seja no pátio ou em potes;

5. Consumir produtos de organizações mais sustentáveis;

6. Organizar o seu dia e sua semana para utilizar menos transporte individual;

7. Deslocar-se de bicicleta, patinete, skate ou a pé;

8. Investir em carro elétrico;

9. Evitar comprar fast fashion e fast foods;

10. Fazer as suas compras com sacos e sacolas reutilizáveis;

11. Escolher bem as suas compras online;

12. Comprar em segunda mão - brechós;

13. Beber água da torneira, utilizando filtro de barro;

14. Reduzir o desperdício alimentar;

15. Comer menos carne;

16. Não utilizar às esponjas e palhinhas descartáveis, prefirindo a buchinha vegetal;

17. Adquirir uma garrafa reutilizável;

18. Informar-se sobre o seu impacto sobre o Planeta;

19. Apoiar uma instituição dedicada ao ambiente;

20. Fazer voluntariado.

Quer ser honesto consigo mesmo e calcular sua Pegada Ecológica? Acesse https://www.footprintnetwork.org/  e confira o resultado!

 

Veiculação de conteúdo: Guaíba Online não responde ou emite juízo de valor sobre a opinião de seus colunistas. Os colaboradores são autores independentes convidados pelo portal. As visões de colunistas podem não refletir necessariamente as mesmas da plataforma Guaíba Online.

 

Fontes:

Cálulo da Pegada de Carbono. Disponível em https://www.footprintcalculator.org/en/results/0/facts-figures  Acesso em 16/02/2021.

Global Footprint Network. Disponível em  https://www.footprintnetwork.org/ Acesso em 16/02/2021.

WWF. Disponível em https://www.wwf.org.br/ Acesso em 16/02/2021.

 

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