O câncer já é a principal causa de morte em 670 municípios brasileiros, segundo levantamento do Observatório de Oncologia apresentado na quarta-feira (5), durante o Fórum Big Data em Oncologia, em São Paulo. O estudo analisou dados do Ministério da Saúde de 1998 a 2023 e identificou que o número de cidades onde os tumores superam as doenças cardiovasculares cresceu 30% nos últimos oito anos.

A região Sul concentra quase metade dessas ocorrências, com 310 municípios. O Rio Grande do Sul aparece na liderança nacional, com 168 cidades nessa condição, o que representa 34% do total estadual. Em território gaúcho, 22% das mortes registradas já são provocadas por neoplasias malignas, índice superior à média nacional, de 17%.
Avanço regional e fatores associados
Os pesquisadores apontam que a concentração no Sul está relacionada à maior expectativa de vida, estrutura de diagnóstico mais consolidada e características ambientais e genéticas da população. A presença de áreas agrícolas com uso intensivo de agrotóxicos e a predominância de pessoas com maior suscetibilidade ao câncer de pele estão entre os fatores que contribuem para o cenário identificado.
A análise também indica que o aumento das notificações pode refletir tanto a ampliação da rede de diagnóstico quanto as desigualdades regionais. Em áreas com menos recursos, o câncer pode causar mortes não registradas oficialmente como tal, resultando em subnotificação.
Interiorização e envelhecimento da população
Entre os municípios onde o câncer lidera as estatísticas, quase metade tem menos de 25 mil habitantes. Esses locais reúnem cerca de 9,2 milhões de pessoas, em regiões com menor oferta de serviços especializados. O estudo mostra que 77% das mortes ocorrem entre pessoas com mais de 60 anos, e que os tumores de pulmão, mama e próstata continuam sendo os mais letais.
Desafios do diagnóstico e tratamento
Mesmo com a Lei dos 60 Dias, que prevê o início do tratamento em até dois meses após o diagnóstico, o estudo aponta atrasos frequentes. As dificuldades de acesso a exames, patologia e radioterapia fazem com que muitos pacientes cheguem às unidades de saúde em estágios avançados da doença.
Perspectiva nacional
Desde 1998, as mortes por câncer aumentaram 120% no Brasil, enquanto os óbitos por doenças cardiovasculares cresceram 51%. Caso o ritmo atual se mantenha, o câncer deve se tornar a principal causa de morte no país até 2029.

Os especialistas envolvidos na pesquisa destacam a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, rastreamento e logística de atendimento. O estudo alerta que o país ainda não está preparado para lidar com a mudança epidemiológica e reforça a importância de investimentos contínuos na rede de saúde para enfrentar a expansão dos casos.
Comentários: