Uma série de ocorrências após um mutirão oftalmológico realizado no município de Irecê, no norte da Bahia, está sendo apurada por autoridades de saúde e policiais. O procedimento envolveu a aplicação do medicamento Avastin (bevacizumabe), indicado para tratamento oncológico, em 143 pacientes submetidos à terapia antiangiogênica entre os dias 28 de fevereiro e 1º de março.
De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), 26 pacientes relataram intercorrências após os procedimentos, incluindo sintomas como ardência e vermelhidão ocular. Entre os casos, há registros de perda de visão, necessidade de retirada do globo ocular em ao menos um paciente e o óbito de um homem de 72 anos ocorrido cerca de um mês após a intervenção. A maioria dos atendidos com complicações foi identificada como usuária do Sistema Único de Saúde (SUS).
A fabricante do medicamento, Roche Farma Brasil, informou que o produto possui aprovação da Anvisa desde 2002 para tratamento de diferentes tipos de câncer, mas não foi desenvolvido para uso oftalmológico injetável. Segundo a empresa, a aplicação fora das indicações previstas em bula (uso off-label) já foi associada a eventos adversos.
O Centro Médico e Odontológico responsável pelos procedimentos declarou que o uso do bevacizumabe em terapias oftalmológicas está previsto em protocolos clínicos adotados no âmbito do SUS, com base em diretrizes do Ministério da Saúde. A instituição afirma que a prática é utilizada no tratamento de doenças como degeneração macular e retinopatia diabética, quando há indicação clínica.
Sobre as condições de armazenamento dos medicamentos, a Sesab informou que uma inspeção identificou possíveis irregularidades. O centro médico contestou a informação e declarou que os produtos foram mantidos sob temperatura controlada, conforme orientações técnicas.
A Polícia Civil realizou diligências no local e apreendeu prontuários médicos para análise. A investigação busca esclarecer as circunstâncias dos atendimentos, o cumprimento dos protocolos e possíveis responsabilidades pelos danos relatados.
A fabricante informou ainda que não identificou desvios de qualidade no processo de produção do medicamento e que acompanha o caso em cooperação com as autoridades.
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