A identificação da bactéria Acinetobacter baumannii em quatro pontos do Guaíba, em Porto Alegre, colocou em evidência discussões sobre saneamento, monitoramento ambiental e resistência bacteriana. O microrganismo foi detectado durante a primeira campanha de monitoramento de 2026 do projeto ClimaRes WaSH, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS).
A pesquisa apontou a presença da bactéria em amostras coletadas nas praias do Lami e de Ipanema, na região próxima à foz do Arroio Dilúvio e nas imediações da Estação de Bombeamento de Água Pluvial (EBAP) Menino Deus. Neste último ponto, os pesquisadores isolaram uma cepa considerada multirresistente, sem resposta aos antimicrobianos utilizados nos testes laboratoriais.
A Acinetobacter baumannii ganhou repercussão nacional após um surto registrado na UTI neonatal do Hospital Fêmina, em abril deste ano. Na ocasião, o setor precisou ser temporariamente fechado para descontaminação após a confirmação de casos envolvendo a bactéria, incluindo a morte de um bebê prematuro. O atendimento foi retomado posteriormente.
Pesquisadores responsáveis pelo estudo afirmam que não há evidências de que a água do Guaíba tenha levado a bactéria ao ambiente hospitalar. A hipótese considerada mais provável é a circulação inversa: resíduos hospitalares e dejetos humanos contaminados seriam direcionados ao sistema de esgoto e, posteriormente, alcançariam corpos hídricos em áreas sem tratamento integral de esgoto.
Segundo os especialistas, a presença da bactéria no ambiente natural funciona como um indicativo da circulação desse microrganismo na população e em unidades de saúde. A análise integra uma metodologia conhecida como epidemiologia baseada em águas residuais, utilizada para identificar agentes infecciosos a partir do monitoramento do esgoto e de águas urbanas.
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informou que os resultados não têm relação com a água distribuída para consumo humano. Conforme o órgão, a água tratada passa por etapas de filtragem, desinfecção e controle de qualidade antes de chegar à população. O Dmae informou ainda que realiza diariamente mais de 2,4 mil análises ao longo do sistema de captação, tratamento e distribuição, seguindo parâmetros definidos pelo Ministério da Saúde.
Os pesquisadores reforçam que a simples exposição à água do Guaíba não significa contaminação automática. O risco varia conforme o tipo de contato, especialmente em situações de ingestão da água ou exposição de feridas abertas. Pessoas imunossuprimidas, pacientes em tratamento contínuo e indivíduos com contato frequente com ambientes hospitalares integram os grupos considerados mais vulneráveis.
A Acinetobacter baumannii é uma bactéria gram-negativa encontrada naturalmente em ambientes como água, solo e vegetação. Em hospitais, porém, ela pode provocar infecções respiratórias, urinárias, septicemias e infecções em feridas cirúrgicas, sobretudo em pacientes internados em UTIs e submetidos a ventilação mecânica, cateteres e outros procedimentos invasivos.
A preocupação internacional em relação ao microrganismo está ligada à resistência antimicrobiana. Cepas resistentes aos carbapenêmicos, uma das principais classes de antibióticos usados em hospitais, são classificadas pela Organização Mundial da Saúde e pelo Centers for Disease Control and Prevention entre as prioridades globais de vigilância sanitária.
De acordo com os pesquisadores, a pressão causada pelo uso frequente de antibióticos em ambientes hospitalares favorece o surgimento de bactérias resistentes. Isso dificulta o tratamento clínico e amplia os riscos em pacientes já debilitados.
Além da identificação da bactéria, os pesquisadores destacam a importância do sistema de monitoramento utilizado no estudo. A epidemiologia baseada em águas residuais ganhou espaço durante a pandemia de Covid-19 e vem sendo utilizada em diferentes países para rastrear vírus, bactérias e genes associados à resistência antimicrobiana.
No Brasil, iniciativas desse tipo ainda estão concentradas em projetos acadêmicos e programas pontuais. Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, os principais desafios para ampliar a vigilância incluem integração de dados, infraestrutura laboratorial, logística e financiamento contínuo.
A equipe do IPH/UFRGS informou que pretende ampliar o monitoramento nos pontos já analisados, desenvolver métodos de tratamento para redução de microrganismos resistentes e elaborar protocolos voltados a políticas públicas de vigilância sanitária e saneamento.
Especialistas ouvidos pela pesquisa afirmam que o caso não representa motivo para pânico, mas aponta para a necessidade de investimentos em coleta e tratamento de esgoto, monitoramento ambiental e sistemas integrados de vigilância em saúde pública.
Comentários: