TVGO | Guaíba Online

Popularização do conceito: a prática ESG, o Mercado de Ações e a visão dos investidores

Geral

Popularização do conceito: a prática ESG, o Mercado de Ações e a visão dos investidores

A prevenção de riscos e a promoção de impacto positivo se destacam como abordagens de investimento ESG

IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A popularização dos conceitos aliados às práticas pelas empresas de ESG (environmental/ambiental, social and governance/governança) se deu já nos anos 2000 com o lançamento de dois estudos: Who Cares Win (IFC; 2004) e A legal framework for the integration of environmental, social and governance issues into institutional investment, mais conhecido como “Freshfield Report” (UNEP-FI; 2005), os quais defendiam a integração dos aspectos ambientais, sociais e de governança nas decisões de investimento. Ambos os relatórios foram a base para o lançamento dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI; 2019).

.

Fatores ESG abrangem um amplo espectro de questões que tradicionalmente não fazem parte da análise financeira, mas podem ter relevância financeira. Isso pode incluir questionamentos de como as corporações respondem à mudança do clima, quão eficientes são com a gestão da água, quão eficazes são suas políticas de saúde e segurança na proteção contra acidentes, como gerenciam suas cadeias de suprimentos, como tratam seus trabalhadores e se têm uma cultura corporativa que constrói confiança e promove a inovação?

Duas abordagens de investimento ESG se destacam:

  • Prevenção de Riscos: foca nas atitudes e atividades de como as companhias investidas lidam com os riscos associados a tais aspectos, que podem influenciar negativamente o sucesso e a continuidade dos negócios. Nesse caso, os investidores evitam apoiar empresas com histórico frágil de sustentabilidade.
  • Promoção de Impacto Positivo: foca na adicionalidade de benefícios sociais, ambientais e de governança gerados pelas investidas por meio de suas operações, a partir da qual os investidores optam por alocar seus recursos em companhias que geram valor compartilhado entre seus acionistas, fornecedores, clientes e comunidade.

..

Investidores ESG que procuram avaliar o risco de um investimento, em geral, examinam desempenho, planos, compromissos e progressos da empresa em diferentes categorias, além de compará-la a outras empresas do setor e, ainda, comparar diferentes indústrias e setores. Essa análise por vezes olha para além da companhia em si, abrangendo também sua cadeia de valor e a comunidade onde se insere. O quadro a seguir mostra algumas áreas de interesse geralmente avaliadas.

Ambiental

O impacto que uma empresa tem no ambiente natural, seja por meio de suas operações, cadeia de suprimentos ou produtos. Fatores ambientais podem incluir:

-      Emissões de gases de efeito estufa (GEE);                         -  Fontes de energia;

-      Uso de recursos (matérias-primas, energia, água);             -   Gestão de resíduos;                                  

-      Uso da terra;

-      Tópicos específicos do setor, como derramamento de óleo, recuperação de minas, desmatamento, poluição da água etc.

Social

O impacto que uma empresa tem sobre os stakeholders, tanto internos (por exemplo, funcionários) quanto externos (por exemplo, clientes) podem incluir fatores sociais como:

-      Direitos humanos;                                            -      Condições de trabalho;

-      Diversidade;                                                     -      Qualidade e segurança dos produtos;

-       Marketing responsável.

Governança

Os sistemas que regem a implementação, monitoramento e emissão de relatórios sobre regras e práticas implementadas por uma empresa e podem incluir:

-      Políticas e práticas de combate a suborno e corrupção;

-      Estrutura, experiência e tamanho da Diretoria e do Conselho;

-      Remuneração da Diretoria e do Conselho;

-      Política e canal de denúncias;

-      Direitos dos acionistas;

-      Equilíbrio dos interesses das partes interessadas.

 

Dentre as estratégias de investimento, diversas estrategemas podem ser utilizados no investimento ESG, em variados níveis de sofisticação, tais como:

...

  • Triagem Positiva (best-in-class): investimento em setores, empresas ou projetos selecionados por desempenho ASG positivo em relação aos pares da indústria. Isso também inclui evitar empresas que não atendam a certos patamares mínimos de desempenho ASG;
  • Triagem Negativa (Lista de Exclusão): a exclusão de um fundo ou plano de determinados setores ou empresas envolvidos em atividades consideradas inaceitáveis ou controversas. Uma variante é a exclusão baseada em princípios, em que são desconsiderados setores ou empresas que não se alinham a compromissos voluntários ligados à temática ESG;
  • Integração ESG: inclusão sistemática e explícita por gestores de investimento de fatores ESG na análise financeira;
  • Propriedade Ativa: envolvimento profundo dos acionistas na gestão das empresas de seu portfólio;
  • Investimento de Impacto: investimentos direcionados à solução de problemas sociais ou ambientais; e
  • Investimento Temático em Sustentabilidade: seleção de ativos especificamente relacionados à sustentabilidade em fundos com um ou vários temas.

 A evolução do interesse por investimentos ESG ocorre desde as primeiras menções sistematizadas à integração de aspectos ESG nos relatórios publicados pela International Finance Corporation (IFC) e pela Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-FI) em 2004 e 2005, e o interesse por esse tipo de investimento vem crescendo, se tornando cada vez mais lugar-comum no mercado, como demonstram diversas pesquisas.

A pesquisa realizada em 2017 pelo CFA Institute, reuniu milhares de analistas e gestores financeiros ao redor do mundo, revelando que 73% dos respondentes incluem algum aspecto ambiental, social e/ou de governança (sendo estes dois últimos os mais comuns) em suas decisões de investimento.

..

Em levantamento de 2020 feito pela consultoria Euromoney, para 85,8% dos investidores, a atitude de uma organização em relação a aspectos ESG é importante ou muito importante na tomada de decisão de investimento, número que chega a 93,4% dos investidores nas Américas,considerando Argentina, Brasil, Canadá, EUA e México.

Entre as razões mais citadas para a incorporação de questões ESG na avaliação de investimentos, estão demanda dos clientes,  melhoria do retorno e/ou redução do risco dos investimentos e atendimento a reguladores.

Além de pesquisas de opinião, estudos acadêmicos também têm se debruçado sobre o assunto,como no artigo de Eccles e Klimenko, publicado na Harvard Business Review, em 2019, os quais identificaram como outros fatores que podem impulsionar a adoção de critérios ESG nas decisões de investimento:

  • O tamanho das empresas de investimento, que operam em uma indústria altamente concentrada em que os cinco maiores atores detêm 22,7% dos ativos gerenciados por terceiros, e os dez primeiros detêm 34%. Alguns dos gestores de ativos atualmente são tão grandes que a teoria moderna do portfólio – que sustenta que os investidores podem limitar a volatilidade e maximizar retornos por meio da diversificação das classes de ativos – perde os efeitos de mitigação dos riscos sistêmicos. Ao contrário de um gestor de pequeno porte, que pode se proteger contra as mudanças climáticas e outros riscos sistêmicos investindo em ações de empresas que constroem abrigos de sobrevivência, por exemplo, as grandes gestoras, que administram trilhões de dólares, já abarcam praticamente todos os setores da economia global e, com isso, veem se estreitar as alternativas de diversificação.
  • O horizonte de investimento de grandes investidores institucionais, como fundos de pensão, que são forçados a ter uma visão de longo prazo porque têm passivos de longo prazo.
  • Uma visão em evolução do dever fiduciário, que, em oposição à perspectiva mais tradicional de focar apenas nos retornos financeiros, entende que é uma violação do dever fiduciário não considerar fatores ESG, dados seus potenciais impactos sobre os ativos, particularmente com o decorrer do tempo.

À medida em que mais agentes do mercado buscam incorporar aspectos ESG em suas decisões de investimento, eleva-se também a demanda por investimentos com perfil positivo nesses fatores, tendo por consequência direta a necessidade de informações acessíveis e confiáveis que permitam identificar setores econômicos, classes de ativos, empresas e emissores adequados ao perfil do investidor.

Evidência disso é que, apesar das diferentes estratégias que podem ser seguidas em busca de investimentos ESG, as classes de ativos em que a consideração desses fatores é mais comum são ações e títulos de renda fixa – porque é para essas classes que há maior disponibilidade e diversidade de fontes públicas de informação.

Buscando suprir essa necessidade, vem se desenvolvendo todo um ecossistema de provedores de informação sobre aspectos ESG ligados a investimentos, formado por centenas de plataformas de índices, rankings e ratings que coexistem e competem entre si para dar suporte aos interessados em avaliar, medir e comparar o desempenho de uma empresa, título ou setor. Entenda as diferenças entre eles:

  • Índices e Rankings: listas que classificam as empresas com base em seu desempenho em uma certa ordem ou agrupamento, segundo um sistema de classificação especificado. São exemplos: Dow Jones Sustainability Indices; Ecovadis Sustainability Risk and Performance Index; e Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE/B3);
  • Serviços de Rating: fornecem avaliações sobre desempenho em questões ASG baseadas em pontuação. Atuam de forma ativa, solicitando informações na forma de um questionário ou pesquisa; e/ou passiva, extraindo informações de relatórios corporativos e outras fontes públicas.

Além desses provedores de informação, há iniciativas que visam organizar o fluxo de informação entre os diversos agentes de mercado por meio do estabelecimento de padrões de reporte e transparência de adesão voluntária. Alguns exemplos:

  • Global Reporting Initiative (GRI): principal padrão de reporte de sustentabilidade (GRI Standards), cobrindo tópicos como anticorrupção, água, biodiversidade, saúde e segurança ocupacional, impostos e emissões de GEE. Empresas que os seguem selecionam do conjunto de indicadores padronizados propostos aqueles que são materiais para suas operações e estratégia.
  • Sustainability Accounting Standards Board (SASB): desenvolveu padrões setoriais específicos de reporte, concentrados em questões materiais financeiras.
  • Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD): criada pelo Financial Stability Board (FSB) com o objetivo de melhorar e aumentar a divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima, incluindo riscos e oportunidades apresentados pelo aumento das temperaturas, políticas relacionadas ao clima e tecnologias emergentes.

Por fim, compõem também o ecossistema do investimento ASG diversos compromissos voluntários que podem ser assumidos tanto por gestores de ativos quanto por potenciais investidas visando assegurar que suas políticas, objetivos e procedimentos estejam alinhados a boas práticas ambientais, sociais e de governança.

Dentre eles, destacam-se os Princípios para o Investimento Responsável (PRI, da sigla em inglês para Principles for Responsible Investment) – conheça os seis princípios. Criados com o apoio da ONU, no final de 2021 contavam com mais de 3.800 signatários originados em mais de cinquenta países e responsáveis pela gestão de US$ 121 trilhões em ativos.

Outro compromisso que merece menção é o Código Amec de Princípios e Deveres dos Investidores Institucionais, criado em 2016 para unificar iniciativas de fomento a melhores práticas de atuação de gestores no mercado nacional. Em 2017, a BNDES/PAR aderiu ao código, passando a divulgar anualmente seu Relatório de Stewardship, no qual apresenta como coloca em prática os princípios.

Mesmo com o avanço das forças que impulsionam o investimento ESG, ainda há barreiras a serem superadas, sendo a principal delas a falta de dados consistentes e comparáveis.

As informações sobre fatores ESG muitas vezes se concentram em relatórios anuais ou relatórios de sustentabilidade, que não são voltados especificamente para investidores, mas para um público mais genérico, como reguladores, governos, ONGs e outras partes interessadas. Tampouco auxiliam a concorrência existente entre diferentes critérios de avaliação de índices e ratings e entre padrões de reporte e por essa razão, no mundo todo, reguladores vêm debatendo a necessidade de implantar normas específicas e definir em que medida os padrões voluntários hoje existentes poderiam ser incorporados.

A importância da agenda ESG para as empresas vai além do impulso dado pelos investidores, de forma que outros fatores exigirão que as empresas incorporem aspectos ESG na gestão de seus processos, produtos e projetos. 

O risco climático representará ameaças naturais mais novas e mais frequentes, e análises ESG podem ajudar na identificação de possíveis ameaças e alternativas de solução. 

A regulação aumentará, a exemplo da taxonomia europeia para sustentabilidade ambiental publicada em 2019, submetendo as empresas a novas normas de conduta e reporte.

Além disso, casos de ativismo sustentável no setor privado tendem a subir e a elevar o patamar mínimo de comportamento exigido também por consumidores, como nos casos de empresas de óleo e gás que vêm impondo a si mesmas metas de redução de emissões de GEE.

A ascensão do investimento ESG pode ser entendida como uma aproximação em relação às mudanças nos mercados e nas sociedades. Para os investidores, os dados sobre o tema ESG são cada vez mais importantes para identificar as empresas que estão bem preparadas para o futuro e evitar aquelas que provavelmente terão baixo desempenho.

 


.
.

 

Fontes

- BNDES. Relatório de Stewardship. Paraná. 2017. Disponível em: https://ri.bndes.gov.br/governanca-corporativa/relatorios-de-governanca/ 

CFA Institute. Disponível em https://www.cfainstitute.org/ 

-Código Amec de Princípios e Deveres dos Investidores Institucionais. 2016. Disponível em: https://amecbrasil.org.br/stewardship/codigo/

Eccles, R.G.; Klimenko, S. The Investor Revolution. Disponível em: https://hbr.org/2019/05/the-investor-revolution

- Euromoney 2022. Disponível em https://www.euromoney.com/ 

- Freshfield Report - A legal framework for the integration of environmental, social and governance issues into institutional investment. UNEP-FI. 2005. Disponível em https://www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf 

- Princípios para o Investimento Responsável - PRI. 2019. Disponível em https://www.unpri.org/download?ac=10969#:~:text=Os%20Princ%C3%ADpios%20para%20o%20Investimento%20Respons%C3%A1vel%20(PRI)%20foram%20criados%20por,para%20as%20pr%C3%A1ticas%20de%20investimento         

- Who Cares Win.  IFC. 2004. Disponível em https://www.ifc.org/wps/wcm/connect/topics_ext_content/ifc_external_corporate_site/sustainability-at-ifc/publications/publications_report_whocareswins__wci__1319579355342 

Comentários: