Uma molécula identificada no sangue de pítons após a alimentação pode contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos contra a obesidade, segundo estudo publicado nesta semana na revista Nature Metabolism. A substância, denominada para-tiramina-O-sulfato (pTOS), foi testada em camundongos e demonstrou reduzir o apetite e provocar perda de peso sem efeitos adversos relatados, como náuseas, perda de massa muscular ou queda de energia.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University of Colorado Boulder, que analisaram o metabolismo de pítons-bola e pítons-birmanesas após grandes refeições. Os animais são capazes de ingerir presas inteiras e permanecer longos períodos sem se alimentar, mantendo o funcionamento do organismo. Após a alimentação, apresentam alterações fisiológicas, como aumento de cerca de 25% no tamanho do coração e aceleração significativa do metabolismo.
Durante a análise, os pesquisadores identificaram 208 metabólitos com aumento relevante no sangue das serpentes após a alimentação. Entre eles, o pTOS apresentou níveis até mil vezes superiores em comparação ao período anterior à refeição, o que levou à realização de testes em modelos animais.
Nos experimentos com camundongos, tanto obesos quanto magros, a substância atuou no hipotálamo, região do cérebro responsável pela regulação do apetite. Os animais apresentaram redução na ingestão de alimentos e perda de peso, sem registro de efeitos colaterais associados a tratamentos atuais.
De acordo com o estudo, o pTOS é produzido por bactérias intestinais das pítons e não ocorre naturalmente em roedores. Em humanos, a substância pode ser encontrada em pequenas quantidades na urina e apresenta variação após a alimentação, o que indica potencial relevância metabólica.
Atualmente, medicamentos baseados no hormônio GLP-1 são utilizados no tratamento da obesidade por promoverem sensação de saciedade. Esses fármacos, no entanto, podem provocar efeitos gastrointestinais e, em alguns casos, perda de massa muscular. Os autores do estudo apontam que o pTOS pode representar uma alternativa ou complemento terapêutico, por atuar na regulação do apetite sem apresentar, até o momento, os mesmos efeitos observados em tratamentos existentes.
Os pesquisadores destacam que o desenvolvimento de medicamentos a partir da observação de espécies animais já ocorreu anteriormente, como no caso de terapias inspiradas em substâncias encontradas no monstro-de-gila.
Como próximos passos, a equipe pretende investigar os efeitos do pTOS em humanos e analisar outros metabólitos identificados nas pítons, alguns com aumento de até 800% após a alimentação. Também foi criada uma startup com o objetivo de transformar os achados em aplicações terapêuticas.
Além da obesidade, os cientistas avaliam possíveis aplicações da substância em condições como a sarcopenia, caracterizada pela perda de massa muscular associada ao envelhecimento. Apesar dos resultados obtidos em modelos animais, os autores ressaltam a necessidade de novos estudos para confirmar a segurança e a eficácia em humanos.
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