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Sexta-feira, 19 de Julho de 2024

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Pesquisas nos rios do Rio Grande do Sul identificam presença do vírus da Covid-19

Amostras de água coletadas em toda a região Metropolitana podem indicar o mapeamento da transmissibilidade do novo coronavírus

Aline Stolz - Papo Ambiental
Por Aline Stolz - Papo Ambiental
Pesquisas nos rios do Rio Grande do Sul identificam presença do vírus da Covid-19
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O estudo, desenvolvido através de um megaconvênio entre Universidade Feevale, UFRGS, Fiocruz, Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), Divisão do Laboratório da FEPAM, Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (DMAE), Secretaria do Meio Ambiente e da Sustentabilidade de Porto Alegre e Secretaria de Saúde de Novo Hamburgo, não visa responder se o contato com a água contaminada pode resultar em infecção, mas mapear a transmissão da Covid-19 de forma mais ampla, dar suporte para medidas de prevenção, gerar o entendimento do comportamento do novo vírus através dos esgotos, auxiliar na avaliação de decisões futuras em relação ao coronavírus e relacionar com pesquisas em outros locais do mundo. 

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Tecnicamente e de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, o projeto consiste em monitorar, por meio de análise molecular, a ocorrência e quantificação do RNA viral da SARS-CoV-2, de maneira que se possa realizar a vigilância epidemiológica em efluentes e mananciais, oferecendo suporte às autoridades de saúde durante a pandemia para tomada de decisão em relação às medidas de prevenção à Covid-19. O monitoramento deve ser estendido por dez meses.

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A força-tarefa, iniciada em maio/2020, vem analisando amostras coletadas em duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), duas Estações de Bombeamento de Esgoto (EBE), um manancial e quatro hospitais da região metropolitana. Até o momento, 05 amostras acusaram a presença do vírus em estações de tratamento de água e em saídas de esgoto de ambientes hospitalares. 

As amostras positivas foram coletadas em Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde o aumento da carga viral coincidiu com a elevação do número de pacientes confirmados nessas regiões. Na Estação de Bombeamento de Esgoto (EBE) Baronesa do Gravataí, em Porto Alegre, os pesquisadores detectaram a presença do vírus em 100% das amostras de esgoto bruto coletadas na região, assim como em amostras de efluentes de hospitais. 

Segundo os cientistas, sabe-se que o vírus pode ser excretado por até 30 dias após a contaminação do paciente, mas em relação ao contato com essa água, o risco de contágio ainda é desconhecido. A ampliação do projeto se dará, ainda para o mês de julho/2020, com amostragens previstas no Arroio Dilúvio, no Rio dos Sinos e em arroios contribuintes ao Sinos, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo que sofrem historicamente com o alto impacto de esgoto doméstico, afetados por coliformes fecais. É importante destacar que a água tratada, submetida à aplicação de cloro e outras etapas de tratamento, não representa qualquer risco ao consumidor.

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Já no estado vizinho, a equipe liderada por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) vem analisando amostras de esgoto bruto congelado, coletadas em Florianópolis/SC no período de 30 de outubro/2019 a 04 de março/2020. Em resultados preliminares, a presença do vírus foi detectada a partir de 27 de novembro/2019, com 100 mil cópias de genoma do vírus por litro de esgoto, um décimo da identificada na amostra de 4 de março/2020. 

Santa Catarina registraria oficialmente os dois primeiros casos em 12 de março, em Florianópolis, onde o vírus foi identificado nas amostras de esgoto por meio do teste RT-PCR, capaz de detectar a presença do Sars-CoV-2 a partir de 24 horas após a contaminação do paciente. Esse teste, cuja sigla significa transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase, basicamente transforma o RNA (material genético) do vírus em DNA para identificar sua presença ou não na amostra examinada.

A nível mundo, pesquisadores de pelo menos quatro países, apontaram a presença do novo coronavírus em amostras de esgoto coletadas semanas ou meses antes do primeiro caso registrado oficialmente na cidade chinesa de Wuhan, epicentro da pandemia de covid-19. Cientistas indicam três eixos principais sobre as descobertas de como o vírus nas fezes mudam sobre o que sabemos do vírus Sars-CoV-2:

  1. Origem da Pandemia: o vírus pode ter circulado em esgotos bem antes do que afirma a cronologia oficial;
  2. Monitoramento: detecções no esgoto podem servir como ferramenta ampla e barata de vigilância do avanço da Covid-19; há ao menos 15 países onde se estuda ou se adota essa estratégia de saúde e saneamento; 
  3. Possível Risco à Saúde: presença do material genético do vírus nas fezes indica que o esgoto pode ser uma via de contágio.

Em relação ao primeiro ponto, o estudo que mais chamou a atenção foi liderado por pesquisadores da Universidade de Barcelona. Segundo eles, já havia presença do novo coronavírus em amostras congeladas — coletadas na Espanha — de 15 de janeiro de 2020 (41 dias antes da primeira notificação oficial no país) e de 12 de março de 2019 (nove meses antes do primeiro caso reportado na China).

O questionamento voltou-se para responder como um vírus com potencial pandêmico poderia ter circulado sem chamar a atenção ou criar uma explosão de casos, como ocorreu em Wuhan. Especialistas citam ao menos cinco hipóteses.

  • Hipótese 1.  Pacientes podem ter recebido diagnósticos equivocados ou incompletos de doenças respiratórias, o que teria contribuído para o espalhamento inicial da doença;
  • Hipótese 2.  O coronavírus não tenha se espalhado com força a ponto de originar um surto;
  • Hipótese 3.  Uma eventual contaminação da amostra ou um resultado falso positivo, por causa da similaridade genética com outros vírus respiratórios ou de falhas no kit de teste.
  • Hipótese 4.  O coronavírus era um patógeno à espera de ativação para contaminação de humanos.

Estudiosos do Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, Inglaterra, afirmam que há um número crescente de evidências que apontam que o Sars-CoV-2 estava espalhado pelo mundo antes de emergir na Ásia, em estado de dormência e que foi ativado por condições ambientais.

Para o virologista Dr. Fernando Spilki, Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e docente da Universidade Feevale, é preciso aguardar mais estudos sobre o tema antes de tirar qualquer conclusão sobre a incidência do vírus meses antes da origem conhecida da pandemia, em dezembro, já que os resultados tem de ser avaliados com cautela, assim como a própria característica do Sars-CoV-2 de induzir casos de bastante gravidade e letalidade relativamente alta na população torna improvável que este vírus circule em uma região sem evidência de casos clínicos.

Há quem defenda investigações à moda antiga, de forma que os surtos precisariam ser investigados adequadamente com as pessoas in loco, um a um, questionando as pessoas e começando a construir hipóteses que se encaixem nos fatos, assim como o que o cientista John Snow (1813-58) fez, já que é considerado um dos fundadores da epidemiologia moderna ao sair a campo para investigar um surto de cólera em Londres em 1854 — a doença havia matado dezenas de milhares de pessoas na cidade nas duas décadas anteriores, já que ele não aceitava a teoria mais difundida à época, de que o contágio se dava pelo "ar podre e viciado". Em sua célebre análise de dados, entrevistou moradores, mapeou caso a caso de modo pioneiro e identificou que a causa do surto era na verdade uma fonte pública de água contaminada por dejetos. A descoberta gerou uma revolução nas investigações de espalhamento de doenças.

Estudos apontam que o sistema de tratamento do esgoto é capaz de eliminar a presença do vírus, mas a precária situação sanitária de países como o Brasil pode levar ao despejo de uma enorme carga viral em rios sem tratamento adequado. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2018, apenas 46% do esgoto gerado no país são tratados. A falta de saneamento no Brasil gera mais de 300 mil internações hospitalares por ano, mas ainda não é possível afirmar que a presença de coronavírus no esgoto represente um risco à saúde da população.

O Sars-CoV-2 pode aparecer nas fezes de até metade dos pacientes de covid-19, entre eles, os que tiveram diarreia, sintoma reportado por 1 a cada 5 pacientes. Alguns estudos apontam que, em geral, o vírus aparece nas fezes cerca de uma semana depois dos sintomas e pode permanecer por mais cinco semanas após a recuperação.

Segundo pesquisadores, o método de monitorar a presença do vírus na rede de esgoto de uma cidade pode alertar a existência de um surto de sete a dez dias antes do registro oficial. Um dos pontos positivos dessa abordagem é monitorar também pacientes sem sintomas ou que não foram testados.




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